26 de jul de 2017

CEARÁ-MIRIM É O MUNICICÍPIO QUE MAIS CRESCE EM VIOLÊNCIA


Natal não é o município mais violento do Rio Grande do Norte, é o mais concentrador. A afirmativa foi feita por Ivênio Hermes, especialista em segurança pública e coordenador do Observatório da Violência Letal Intencional do RN (OBVIO). De acordo com Ivênio, as políticas de segurança planejadas pelo Governo do Estado têm sido aplicadas somente em Natal e Parnamirim. Em consequência, os crimes estão irradiando para fora da capital e atingindo os municípios limítrofes como São Gonçalo do Amarante e Ceará-Mirim, cidade que, segundo o especialista, cresceu mais em violência de 2016 para 2017.

Como o estado cria políticas de segurança pública e as aplica em Natal, os crimes deixam de acontecer em Natal e passam a acontecer nesse entorno. Ceará-Mirim é o que mais concentra o crescimento dessa violência. Houve um crescimento de 87% entre 2016 para 2017. Enquanto isso, Natal registrou uma redução de 1,69%. Em Macaíba tivemos 48% de aumento, em Extremoz, 78%. Percebemos com esses números que, onde estão sendo aplicadas essas políticas (Natal e Parnamirim) há uma redução, mas nas áreas que carecem dessas políticas, temos aumento de violência”, explicou Ivênio, em entrevista concedida ao Agora Jornal.O coordenador do OBVIO utilizou os números registrados no fim de semana para ilustrar sua tese. “Neste fim de semana observamos que foram 20 homicídios na Região Metropolitana e 12 fora dela; os 12 de fora ficaram ‘pulverizados’, mas os que ocorreram na Grande Natal se concentraram. Houve um triplo homicídio em Ielmo Marinho, um duplo homicídio em Ceará-Mirim e também em São Gonçalo do Amarante. Trata-se de uma série de crimes em que se percebe há uma concentração ao redor de Natal, que tem recebido essas ações e estratégias”, complementa.Até o último domingo, 23, o Rio Grande do Norte havia registrado um total de 1.363 homicídios. Um aumento de 23% em relação ao mesmo período no ano passado. Este, inclusive, foi o final de semana mais violento de 2017 (considerado já o ano mais violento da história potiguar), com 32 mortes violentas no estado. Para Ivênio, isso se deve à falta de mais atenção por parte do estado.
“O estado vem se mostrando ausente em termos de políticas públicas de segurança desde 2015. Aumentou a falta em políticas sociais; pouca geração de emprego; pouco investimento nos municípios para poder gerar políticas de primeiro emprego para juventude, e, além disso, temos dentro da região um alto índice de evasão escolar. A escola não está tendo presença necessária, principalmente nas comunidades mais distantes, para fazer com que a juventude se sinta atraída pelo conhecimento difundido ali. Logo, o jovem procura a facilidade lá fora”, entende.
Ivênio Hermes também afirma que não há muitas operações polícias funcionando com eficácia, o que resultado em um quadro bizarro onde os maiores bandidos de uma região acabam se tornando seus maiores protetores.
“Não temos estratégias eficazes e devidamente planejadas para as ações da Polícia Militar e da Polícia Civil; essa ausência do estado faz com que a criminalidade se enraíze nesta região. Vejamos os exemplos dos salves: em Vera Cruz, o pessoal do crime organizado disse que tomaria conta da segurança, impedindo que houvesse assaltos, roubos e furtos, porque eles não querem que a população da região sofra com essa criminalidade; em Mãe Luiza a mesma coisa: na última sexta-feira 21, houve um salve e vários cartazes foram pregados nos postes do bairro de Mãe Luiza, onde o Sindicato do Crime disse que, a partir daquele dia, estaria tomando conta da comunidade, evitando que sofressem a ação de roubos, furtos, assalto a ônibus e crimes do gênero”.
Para o professor e especialista em segurança pública, isso “só mostra que estamos retornando cada dia mais à barbárie”. Ele observa que a “lei” inferida pelos bandidos é “altamente bárbara”, citando dois casos recentes para embasar sua tese: um duplo homicídio em São José do Mipibu, em que as vítimas assassinadas foram alvejadas a tiros várias vezes no rosto, e um casal em Ceará-Mirim, cujos corpos foram incendiados logo após as execuções. “O recado que mandam para a sociedade é que as nossas leis são ineficazes; que esse retorno à barbárie – a volta do olho por olho, e dente por dente –, é fortíssima, Há um domínio consolidado através da violência, da coação e do medo”, salientou.
Os índices de crimes violentos contra as mulheres também foram analisados por Ivênio Hermes. De acordo com suas informações, esta modalidade de assassinatos também cresceu em relação ao ano passado (53 em 2016, contra 77 neste ano), levando em conta o mesmo período. O professor frisa que a Polícia Civil não tem condições de cuidar de todos os casos e, por isso, acaba tendo que escolher investigar as ocorrências que causam mais comoções na sociedade, como o recente assassinato da barbeira Micaela Ferreira.
“Estamos com 45% de aumento de mortes matadas de mulheres. Já as mortes com conotação de feminicídio aumentaram em 43%. Tanto nos casos de vítimas mulheres em situações consideradas normais, quanto vítimas em situações de violência doméstica ou de preconceito de gênero, tivemos um aumento razoável, haja vista que, em 2016, tínhamos 53 homicídios de mulheres até a mesma data de hoje, quando já temos 77. O aumento mostra que há uma falha nessa investigação, e quando temos um número de crimes tão grande que a Polícia Civil não tem condições de investigar, vai haver uma escolha de um seguimento ou outro para investigar. Quem vai nas graças da Polícia Civil? Os que tiverem mais clamor público, como a Mica, que gerou uma comoção muito grande”.
Em conclusão, Ivênio expõe que a sociedade e os responsáveis pela segurança pública têm prestado atenção mais em casos qualificados como feminicídios, e deixando de observar outros crimes praticados contra as mulheres. “Estamos falhando com nossas mulheres. Quando tentamos mapear apenas os feminicídios, deixamos de ver uma porção de crimes que ocorrem contra elas. Até que haja uma investigação para que se tenha acesso à informação, o ano já terminou e já perdemos a chance de criar estratégias de redução”, finalizou.