Foto: Roberto Jayme/TSE
Um grupo de eleitores que votou em Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno em 2022 sentou-se à mesma mesa para discutir o Brasil que emerge após três anos de Lula (PT) na Presidência. Eles não se conhecem, moram em diferentes regiões de São Paulo e têm trajetórias distintas. Ainda assim, dois consensos se impõem com facilidade: ninguém avalia positivamente o governo Lula nem cogita votar novamente em alguém com sobrenome Bolsonaro.
A pedido do Estadão, o Instituto Travessia reuniu, em 16 de dezembro, oito eleitores de Bolsonaro para uma pesquisa qualitativa sobre o cenário político do País. O grupo foi formado por quatro homens e quatro mulheres, com idades entre 28 e 59 anos, de diferentes bairros de São Paulo e classes sociais. A dinâmica, mediada pelo cientista político Renato Dorgan, não tem valor estatístico, mas ajuda a dimensionar o desafio que Flávio Bolsonaro terá pela frente se quiser transformar sua pré-candidatura em um projeto viável.
A conversa começou com uma pergunta simples: como está o Brasil depois de três anos de Lula? A resposta foi unânime: o País está pior. Nas palavras de um participante, “como se tivéssemos dado um passo para frente e dois para trás”. Trunfos alardeados pelo governo petista, como o desemprego em mínima histórica ou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, num sinal de que o presidente, até aqui, não conseguiu furar o antipetismo.
Se, por um lado, o antipetismo segue vivo, por outro, o bolsonarismo se mostra tóxico para o grupo. Provocados a definir Jair Bolsonaro em uma palavra, os oito participantes dispensaram eufemismos. “Maluco”, “covarde”, “falastrão”, “instável”, “mentiroso” e “pilantra”. Uma das entrevistadas foi além e disse sentir-se “traída” pelo ex-presidente.
“Ele prometeu tanta coisa. A gente sentia que haveria uma mudança”, afirmou M., comerciante de 59 anos, identificada apenas pela inicial para preservar o anonimato. Em outro momento da conversa, ela criticou a condução da pandemia. “Ele viu muita gente morrer e não fez nada”, disse, antes de completar que Bolsonaro “falava muita asneira”.
A atuação na pandemia, o excesso de declarações polêmicas e a percepção de que Bolsonaro “prometeu demais e, na hora H, se acovardou” – nas palavras do vendedor D., de 44 anos – formam um diagnóstico comum no grupo.
Embora haja entre os participantes a percepção de que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), agiu de forma pessoal no julgamento que levou à prisão do ex-capitão, o fato de Bolsonaro estar inelegível e detido em uma sala da Superintendência da Polícia Federal (PF) passou sem contestação ou reação emocional. Já a tentativa de romper a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda foi criticada e virou motivo de piada.
“Não consigo pensar que um ex-presidente da República meteu um ferro de solda na tornozeleira eletrônica. Você é um ex-militar, como perdeu o controle”, comentou um dos participantes, se referindo à justificativa de Bolsonaro de que o episódio foi motivado por “paranoia” e “alucinações” causadas pelo uso de medicamentos.
Rejeição a Flávio Bolsonaro
A rejeição a Bolsonaro se estende ao próprio sobrenome. A relação do ex-presidente com os filhos é vista de forma problemática, e a maioria descarta votar em candidatos da família.
A auxiliar administrativa M., moradora do Jardim Paulista, compara o ex-presidente aos “pais de hoje em dia, que passam a mão na cabeça dos filhos”. Para ela, “qualquer membro da família Bolsonaro que entrar na política terá Bolsonaro por trás de tudo”. Outros concordaram.
O participante D. afirma que o ex-presidente usou “a máquina para proteger os filhos”. Já a advogada da Vila Madalena M., de 41 anos, avalia que “qualquer filho do Bolsonaro que disputar uma eleição contra Lula perde”.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) é vista com menos resistência, mas a gerente de logística C., de 38 anos, ponderou que ela nunca exerceu um mandato. “A gente precisa de político, não de alguém que fique bem nas fotos.”
Os oito participantes demonstraram pouco conhecimento sobre Flávio Bolsonaro. Um deles chegou a afirmar que o senador seria “senador por Recife” — quando, na verdade, é senador pelo Rio de Janeiro.
As impressões sobre o pré-candidato são difusas. Uma entrevistada disse que ele “tem cara” de ser sensato; outra o definiu como “o pior dos filhos de Bolsonaro, muito manipulador”. Uma terceira afirmou lembrar “de muitas coisas que ele fez e o pai cobriu”.
Em diferentes momentos da pesquisa, os participantes expressaram o desejo por uma alternativa fora da polarização. “Quero acreditar que vai ter outra opção além de um Bolsonaro e o Lula”, disse uma das entrevistadas. Para o barbeiro V., de 55 anos, “o Brasil precisava que aparecesse alguém do nada, quase uma entidade”. Uma terceira resumiu o sentimento do grupo: “precisava surgir algo novo na política”.
Nesse cenário, há grande receptividade à ideia de Tarcísio de Freitas (Republicanos) disputar a Presidência. Todos afirmaram que votariam no governador. A avaliação da gestão em São Paulo, porém, é mais matizada: dois consideram que Tarcísio vai bem, enquanto os demais classificam o desempenho como regular. Ninguém o avalia como ruim, no entanto.
“Tarcísio, mesmo com ressalvas, seria o candidato ideal para Bolsonaro”, disse C., moradora do Morumbi. Ela diz que os paulistas ainda não conhecem plenamente o governador, mas que ele aparenta falar a verdade e transmite segurança, atributos que ela diz buscar como eleitora. M. avaliou que Tarcísio faz um “governo ok”, mas “passa confiança”. “A segurança está ruim, mas melhorou com ele”, afirmou.
Outra eleitora também elogia os avanços na segurança que atribui à parceria com a prefeitura, e destaca o fato de Tarcísio não estar tão ligado a Bolsonaro. Para ela, o governador “consegue circular nos dois espectros, direita e esquerda”.
Para o vendedor D., Tarcísio “faria falta em São Paulo”, mas surge como opção para a Presidência por governar um Estado de grande porte. “É como se ele fosse presidente de um país de primeiro mundo”, disse, citando o fim da Cracolândia como trunfo da gestão Tarcísio e do agora ex-secretário de Segurança Guilherme Derrite.
Outros governadores de direita são pouco conhecidos pelo grupo, mas há disposição em conhecê-los e até em votar neles. Ao ver a foto de Ratinho Júnior, uma eleitora reagiu: “Quem é esse cidadão?”. O governador do Paraná foi reconhecido por apenas um participante. “Ele precisa se mostrar mais”, disse outro.
Romeu Zema foi reconhecido por quatro pessoas do grupo, que dizem saber pouco sobre sua atuação. Ainda assim, para eles pesa a favor o fato de governar um Estado do tamanho de Minas Gerais. Já Ronaldo Caiado foi reconhecido por cinco participantes, que sabem que ele é governador de Goiás. Os eleitores dizem ouvir elogios às políticas de segurança adotadas por ele.
Apesar do baixo nível de conhecimento, seis participantes afirmaram que poderiam votar em qualquer um deles em um eventual confronto com Lula.
“Tarcísio continua sendo a melhor opção em São Paulo para presidente. A família Bolsonaro tem um teto preocupante entre eleitores moderados à direita e de centro. Metade dos eleitores do grupo da qualitativa não admitem nem analisar Flávio Bolsonaro. Porém, os mesmos eleitores admitem analisar os governadores Ratinho e Caiado, mostrando que a família Bolsonaro teria graves dificuldades de repetir a mesma votação de Bolsonaro em São Paulo em 2022”, diz Dorgan.
No caso de Eduardo Leite, dois participantes dizem já conhecer o governador e avaliam que ele governa bem. Questionados sobre se a orientação sexual do político seria um problema, inicialmente sete afirmaram que não. Uma participante, no entanto, disse ver ressalvas, ao afirmar que a eleição de um presidente gay poderia promover a pauta LGBT no País. A colocação abriu discussão no grupo, e outros participantes passaram a concordar com esse argumento.
Ao longo da pesquisa qualitativa, ficou evidente um sentimento forte de conservadorismo entre os participantes, expresso principalmente na defesa de uma política de segurança mais dura e na rejeição ao que chamam de ideologia de gênero, sobretudo nas escolas.
Estadão Conteúdo
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