
Por Leonardo Sakamoto no Uol
O bombardeio da Venezuela por Donald Trump, atropelando as leis internacionais, e as reiteradas ameaças de anexação da Groenlândia, território da Dinamarca, são o contexto em que a maioria esmagadora dos países membros da União Europeia decidiram hoje fortalecer vínculos econômicos e políticos com a América do Sul. Aprovaram, assim, o o tratado de livre comércio que estava sendo discutido entre os blocos no último quarto de século.
Em outras palavras, o presidente norte-americano, ao tratar a Europa, aliada histórica dos EUA, como inimiga, ajudou Lula, que tinha no acordo entre a UE e o Mercosul uma das prioridades de seu governo.
A perda de confiança de Bruxelas, sede do parlamento europeu, em Washington foi brutal ao longo de 2025. Não apenas por conta dos últimos episódios, que foram apenas a gota d’água, mas devido ao tarifado imposto a países do bloco e ao comportamento errático de Trump frente à crise causada pela invasão da Rússia na Ucrânia. Por vezes, líderes europeus se perguntaram se ele estava ao lado de Vladimir Putin ou da Otan.
É claro que há um caminho curto e esburacado para que a presidente da Comissão europeia Úrsula von der Leyen possa assinar o tratado com o Mercosul em Assunção, no Paraguai, na semana que vem. Os 27 países membros do bloco terão que ratificar o texto em seus parlamentos nacionais. E apesar de não ter atingido uma minoria de barreira, França, Hungria e Irlanda vão usar de os mecanismos possíveis para tentar evitar o acordo. Emmanuel Macron teme que ele vá levar a extrema-direita francesa ao poder, com suporte de agricultores locais.
A geopolítica tem esse humor ácido: quem espalha bombas acaba abrindo mercados, e quem é acusado de “ideológico” colhe pragmatismo. Trump, que tenta governar o continente americano no grito e na bomba, acabou juntando ele e a Europa em um acordo que engavetava há décadas
O Brasil não precisou vestir farda, apenas existir como alternativa previsível em um cenário dominado pela imprevisibilidade.
A União Europeia não acordou subitamente apaixonada pelo Mercosul, apenas concluiu que, diante de um aliado que flerta com o caos, negociar com o Sul global passou a ser menos arriscado do que continuar esperando racionalidade de Washington — de quem é grande parceira comercial. Ao mesmo tempo, o continente está em busca de vendedores confiáveis e estáveis de petróleo e gás, uma vez que hoje depende da inimiga Rússia para não congelar no inverno.
Em política internacional, como na vida, às vezes a ajuda decisiva vem justamente de quem queria te derrubar.
Em tempo: Trump nunca viu com bons olhos o acordo entre o Mercosul e a União Europeia porque vê prejuízo econômico e geopolítico aos EUA. Vai reagir, ô se vai.
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