Maior parque têxtil da América Latina fica em Natal (RN); conheça

Com 219 mil m² de área construída e cerca de 9 mil colaboradores, a Fábrica Guararapes, em Natal (RN), é o maior parque têxtil integrado da América Latina. A operação vai do fio à peça pronta e concentra, em um único local, etapas que, na maioria das confecções, ficam pulverizadas entre diversos fornecedores. Além da magnitude do complexo, a preocupação com a produção sustentável de roupas também se destaca entre os diferenciais da fábrica.

Guararapes

Mais de 37 milhões de peças foram produzidas em 2025

Do campo à fábrica

Parte da matéria-prima da fábrica vem do algodão agroecológico cultivado no Seridó potiguar, região que já foi um importante polo algodoeiro e perdeu a atividade para a praga do bicudo nos anos 1980. O replantio é recente. O projeto Agro Sertão, conduzido pelo Sebrae-RN, pela Embrapa e pelo Instituto Riachuelo, começou em 2022 com 54 famílias produtoras em seis municípios. Hoje, reúne mais de 180 produtores, que cultivam o algodão em conjunto com outras culturas alimentares para otimizar o uso da água e do solo. 

No projeto Agro Sertão, trabalham mais de 247 pequenos agricultores, distribuídos por 17 municípios

Trata-se de um recorte pequeno diante do volume que a fábrica produz diariamente, mas que simboliza o reconhecimento da necessidade de transformar uma das indústrias que mais poluem. A moda responde por cerca de 10% das emissões globais de carbono e consome, em média, 79 bilhões de metros cúbicos de água por ano, segundo dados citados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

O algodão agroecológico é cultivado com práticas sustentáveis de baixa irrigação e sem agrotóxicos

No Brasil, o problema também aparece na ponta do descarte: apenas 20% das cerca de 170 mil toneladas de roupas produzidas anualmente no país são recicladas, segundo dados do Instituto Sustentabilidade Têxtil e Moda. O algodão orgânico certificado produzido na região ainda não tem escala industrial, principalmente porque a agricultura familiar ainda está em fase de estruturação e necessita de apoio técnico e financeiro.

Parte da matéria-prima da fábrica vem do algodão agroecológico cultivado no Seridó potiguar

A escala da produção

A Fábrica Guararapes opera com 76 teares circulares, capazes de produzir até 19 toneladas de malha por dia. Já os teares retilíneos, usados na confecção de golas e punhos de camisas polo, fabricam 650 kg diários, com quase toda a produção destinada à Riachuelo. Na tinturaria, 27 máquinas overflow processam cerca de 24 toneladas de tecido por dia, seguindo receitas de cor que precisam corresponder exatamente ao padrão Pantone definido em laboratório.

Todas as malhas passam por processos de beneficiamento, que conferem amaciamento e toque suave



O corte é 100% automatizado e processa cerca de 155 mil peças por dia, com taxa de aproveitamento de matéria-prima de 85,6%. Isso significa que 14,4% do tecido cortado se transforma em resíduo. Embora esse percentual, isoladamente, pareça elevado, ele é inferior à média do setor de confecção, que registra perdas entre 15% e 20%. Na costura, mais de 3.400 costureiras e costureiros trabalham em três “fábricas internas”, cada uma especializada em um tipo de peça, de básicos de malha a modelos mais elaborados em tecido plano. Ao todo, são produzidas cerca de 105 mil peças por dia.

Um dos processos mais específicos da fábrica é o tingimento natural, desenvolvido em parceria com a Química Inteligente, por meio de um sistema de encapsulamento biodegradável. O catálogo de cores naturais inclui um marrom-avermelhado extraído da casca de acácia-negra, um azul-escuro obtido por fermentação de folhas de anileira e um verde profundo extraído de alfafa-da-festuca. Já a parcela da produção que ainda utiliza corantes convencionais conta com um sistema de recirculação de água, que reduz o consumo de 10 para 4 litros por quilo de peça tingida.


Tonalidade produzida por meio da fermentação das folhas de diversas espécies de anileiras, como as do gênero Indigofera

Considerando que a indústria da moda é responsável por uma parcela maior das emissões globais de carbono do que a aviação e o transporte marítimo somados, de acordo com relatório do Pnuma, o termo greenwashing se popularizou para descrever casos em que empresas projetam uma imagem de sustentabilidade sem embasamento suficiente nos dados apresentados. Isso não significa que toda certificação seja uma fachada, mas reforça a importância de questionar quem realiza a auditoria, quais critérios são adotados e que parcela da produção total aquele número representa efetivamente.


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Lixo têxtil é apenas um dos problemas ambientais causados pela indústria da moda

O Grupo Guararapes informa que entre 85% e 86% dos fios e tecidos produzidos na fábrica hoje possuem alguma certificação de menor impacto ambiental (ABR, FSC, RCS ou GRS), percentual que vem crescendo de forma consistente nos últimos anos. O que se observa diretamente na operação é a produção em escala industrial aliada a processos de reuso de água, com tecnologias já consolidadas no mercado, além da ampliação anual da certificação de sua matéria-prima.

A fábrica conta com diversas máquinas que fazem customizações em jeans, reduzindo as lavagens

A força de trabalho por trás da produção

A operação depende, antes de tudo, de mão de obra: são mais de 3.400 pessoas na costura, quase 9 mil funcionários na fábrica e uma rede de 93 oficinas no interior do estado, que também gera empregos indiretos. O peso do Rio Grande do Norte como polo têxtil é evidente, com impacto direto na geração de empregos e na economia local.

Na fábrica, a Riachuelo é responsável pela alimentação e pelo transporte dos colaboradores

Destaca-se também a estrutura voltada à formação e à retenção de mão de obra. A Escolinha de Costura da Guararapes, desenvolvida em parceria com o Senai, forma cerca de 250 costureiros e costureiras por ano, funcionando como porta de entrada e trilha de qualificação. Esse é um contraponto relevante em um setor historicamente marcado por denúncias de precarização e alta rotatividade: ali, a estrutura observada aponta para o investimento em formação e para a possibilidade de ascensão interna.

Em 2025, foram gerados 33.847 empregos diretos



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