Diante de multidão no RN, Lula chama ato de “passeata da vitória de Cadu”

 

Diante de multidão no RN, Lula chama ato de “passeata da vitória de Cadu”

O Alecrim foi tomado por uma multidão neste sábado (10). Em carro aberto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) percorreu as ruas de um dos bairros mais populares e movimentados de Natal, numa caminhada que reuniu apoiadores e lideranças políticas de diferentes estados do Nordeste. A mobilização teve como objetivo reforçar as campanhas de Lula à Presidência da República e de Cadu de Lula (PT) ao governo do Rio Grande do Norte, no segundo turno das eleições de 2026.

“Essa é a passeata da vitória do nosso companheiro Cadu”, declarou Lula durante o ato.

O presidente também apresentou a mobilização como uma manifestação em defesa do fim da escala de trabalho 6×1, contra as apostas on-line que, segundo ele, retiram dinheiro da população mais pobre, e pela soberania nacional. 

A visita marca o retorno de Lula ao estado durante a campanha. No primeiro turno, o presidente esteve no Rio Grande do Norte para abrir sua agenda eleitoral no estado. Agora, volta para reforçar a candidatura de Cadu de Lula.

A caminhada colocou nas ruas uma disputa que vai além dos nomes nas urnas. No discurso, Lula relacionou a eleição aos rumos das políticas sociais, à distribuição dos recursos públicos, à educação e ao desenvolvimento regional. A presença de governadores e lideranças nordestinas também deu ao ato uma dimensão que ultrapassou as fronteiras potiguares.

“O Nordeste não vai faltar ao compromisso com o Brasil”

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A governadora Fátima Bezerra (PT) sintetizou o sentido político que a campanha procurou imprimir à mobilização ao se dirigir ao presidente.

“O Nordeste não vai faltar ao compromisso com o Brasil, presidente”, afirmou.

A declaração conecta a disputa eleitoral de 2026 a uma relação política construída ao longo dos governos do PT. O Nordeste se consolidou como uma das principais bases eleitorais de Lula, ao mesmo tempo em que políticas sociais, investimentos públicos e a expansão do ensino superior passaram a ocupar lugar central na narrativa sobre as transformações ocorridas na região.

Durante o discurso em Natal, Lula retomou essa trajetória ao falar sobre a ampliação das universidades e dos Institutos Federais e defender que os estados nordestinos tenham as mesmas oportunidades de desenvolvimento das demais regiões brasileiras.

“Eu não quero tirar nada de nenhuma parte do Brasil. A única coisa que eu quero é que o Nordeste tenha a mesma oportunidade que os outros estados”, afirmou.

O presidente citou ainda a transposição do Rio São Francisco, a Transnordestina e os canais de irrigação no sertão da Bahia e de Alagoas como exemplos de investimentos que, em sua avaliação, contribuíram para ampliar as possibilidades de desenvolvimento regional.

Ao relacionar essas iniciativas à educação, Lula defendeu que os jovens tenham condições de ingressar e permanecer na escola e na universidade. Mencionou também o Pé-de-Meia, programa federal de incentivo financeiro a estudantes do ensino médio público.

“É o Nordeste dizendo o que é respeito, o que é democracia, o que é mais educação, o que é mais emprego, o que é mais cultura, o que é mais universidade”, declarou. Em seguida, afirmou que a região não deve continuar sendo tratada como invisível.

A fala recupera uma questão histórica: as desigualdades entre as regiões brasileiras e a participação do Nordeste nas decisões sobre o desenvolvimento do país. Embora a expansão de políticas públicas e investimentos tenha ampliado oportunidades, problemas como a pobreza, a desigualdade de renda e as diferenças de acesso a serviços públicos continuam presentes.

É nesse encontro entre memória, políticas públicas e expectativas de futuro que a declaração de Fátima ganha significado. Ao afirmar que o Nordeste não faltará ao compromisso com o Brasil, a governadora associa o apoio a Lula à continuidade de um projeto político que apresenta a redução das desigualdades regionais como uma de suas prioridades.

Governadores e senadores nordestinos acompanham Lula

A dimensão regional do ato ficou evidente na presença de governadores e lideranças políticas de diferentes estados do Nordeste.

Além de Fátima Bezerra, anfitriã da mobilização, participaram Jerônimo Rodrigues (PT), governador da Bahia; Elmano de Freitas (PT), do Ceará; Rafael Fonteles (PT), do Piauí; e Lucas Ribeiro (PP), governador eleito da Paraíba.

A presença de Lucas Ribeiro chamou atenção pelo contraste com o posicionamento nacional de seu partido. O PP integra a federação União Progressista, que declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. A participação do governador eleito paraibano ampliou o alcance político da mobilização para além das fileiras petistas.

Também acompanharam a atividade o senador eleito Rui Costa (PT-BA), ex-governador da Bahia, e Marília Arraes (PDT-PE), senadora eleita por Pernambuco, além de Samanda de Lula (PT-RN), senadora eleita pelo Rio Grande do Norte. Parlamentares e outras lideranças potiguares também integraram a mobilização.

O governador baiano Jerônimo Rodrigues projetou a participação potiguar no contexto nacional. “O Rio Grande do Norte vai se juntar a todos os estados do Brasil pra celebrar a vitória da esperança, a vitória dos nossos sonhos”, declarou.

A reunião de representantes de diferentes estados nordestinos reforçou a estratégia de apresentar a eleição potiguar como parte de uma disputa política nacional. Ao lado de Lula, os governadores e parlamentares deram visibilidade à articulação regional em torno da candidatura presidencial e ao apoio a Cadu Xavier.

Lula questiona corte de R$ 250 bilhões anunciado por Flávio Bolsonaro

Na entrevista coletiva durante a agenda em Natal, Lula criticou a proposta de Flávio Bolsonaro (PL) de cortar R$ 250 bilhões em despesas públicas. O presidente questionou quais áreas seriam atingidas por uma redução dessa dimensão e afirmou que medidas de austeridade costumam pesar sobre a população de menor renda.

“Quando o meu adversário diz que vai cortar R$ 250 bilhões, que vai ter um tesouraço, é preciso que a sociedade comece a se perguntar de onde é que vai ser esse corte”, declarou.

Para sustentar a crítica, Lula recordou cortes que, segundo ele, atingiram políticas sociais antes de seu retorno à Presidência, em 2023. Citou o Farmácia Popular, o Minha Casa, Minha Vida, as creches, o ensino médio e a política de valorização do salário mínimo.

“Eu não conheço ninguém da elite brasileira que governou esse país que teve coragem de cortar dos ricos, dos banqueiros, dos empresários, do sistema financeiro, dos fazendeiros. Sempre corta dos pobres”, afirmou.

A declaração coloca no centro da disputa a discussão sobre quem arca com os efeitos de um ajuste fiscal. A proposta de corte de R$ 250 bilhões precisa ser examinada a partir de seu detalhamento, para identificar quais despesas seriam reduzidas, quais políticas poderiam ser afetadas e como os impactos seriam distribuídos entre os diferentes grupos sociais.

Para Lula, a eleição também envolve a escolha sobre a continuidade das políticas públicas e a distribuição dos recursos do Estado. A crítica faz parte do confronto entre os projetos apresentados pelas campanhas presidenciais, cujas propostas de orçamento, tributação e gastos públicos precisam ser avaliadas a partir de seus conteúdos e efeitos.

Combustíveis e custo de vida entram no discurso

A alta internacional do petróleo também entrou na fala de Lula. O presidente relacionou a pressão sobre os combustíveis aos conflitos geopolíticos e defendeu a atuação do governo federal para amortecer os efeitos sobre os consumidores brasileiros.

Na sexta-feira (9), o governo anunciou novas medidas tributárias e subsídios para reduzir a pressão dos preços internacionais sobre o mercado nacional. Entre elas, a redução a zero, por 30 dias, dos tributos federais incidentes sobre a gasolina, elevando a desoneração tributária para R$ 0,89 por litro de gasolina A.

O pacote também prorrogou a desoneração do etanol, ampliou a subvenção aos produtores do biocombustível e anunciou auxílio adicional de R$ 1,40 por litro aos importadores de diesel rodoviário. Segundo o governo federal, as medidas adicionais teriam custo de R$ 5,2 bilhões em 30 dias.

Lula afirmou que os recursos provenientes do setor petrolífero permitem ao governo financiar ações para amortecer a alta internacional dos combustíveis. A intenção, segundo ele, é evitar que os efeitos da crise internacional cheguem aos preços pagos pela população.

“Não chega no feijão do povo, não chega no pão do povo, não chega no leite do povo”, afirmou.

A redução tributária, no entanto, não significa automaticamente uma queda de igual valor nas bombas. O preço final pago pelo consumidor também depende dos custos de distribuição e revenda e das condições do mercado. O efeito das medidas deve ser acompanhado nos preços efetivamente praticados.

Ao trazer os combustíveis para o discurso eleitoral, Lula relacionou a política econômica a uma preocupação cotidiana de trabalhadores, motoristas e famílias: o custo de manter o orçamento doméstico diante das oscilações dos preços.

Cadu associa candidatura à continuidade do projeto nacional

O candidato ao governo do Rio Grande do Norte procurou vincular sua campanha à mobilização nacional liderada por Lula.

“O Nordeste tá dizendo ao Brasil que nós não vamos retroceder!”, afirmou Cadu de Lula, ao convocar os potiguares a atender ao chamado do país.

O candidato encerrou sua convocação associando as duas disputas eleitorais: “É 13 pra presidente e 13 pra governador. Cuida!”.

A aproximação entre as campanhas é um dos eixos da estratégia petista no segundo turno. Cadu busca mobilizar o eleitorado que associa os governos do PT à continuidade de políticas públicas e à parceria com a administração federal.

Na votação de 4 de outubro, Cadu obteve 718.300 votos, ou 36,16%, enquanto Allyson recebeu 733.809 votos, equivalentes a 36,94% dos votos válidos. A diferença foi de 15.509 votos.

A margem estreita tornou o segundo turno decisivo para as duas campanhas, que buscam ampliar suas bases de apoio. A presença de Lula no estado reforça a aposta do PT na mobilização de eleitores que apoiam o presidente e na associação entre o projeto nacional e a candidatura estadual.

Alecrim, memória política e mobilização popular

Tradicional centro comercial e de circulação de trabalhadores, o Alecrim ocupa um lugar importante na vida cotidiana de Natal. O bairro também faz parte da memória política da capital, especialmente por causa da Praça Gentil Ferreira, conhecida como Praça do Relógio, palco de manifestações históricas em defesa da democracia.

Em 6 de abril de 1984, durante a campanha nacional das Diretas Já, milhares de pessoas participaram de um comício na praça em defesa do restabelecimento das eleições diretas para presidente da República. O movimento mobilizou o país contra a continuidade da escolha indireta do chefe do Executivo federal, ainda sob a estrutura política da ditadura militar.

A caminhada de Lula ocorreu em outro contexto histórico, mais de quatro décadas depois. Naquele momento, a principal reivindicação era o direito de escolher diretamente o presidente. Neste sábado, a mobilização integrou uma campanha eleitoral em que os votos definirão a continuidade ou não do atual governo federal e quem governará o Rio Grande do Norte.

A referência histórica ajuda a compreender o Alecrim como espaço de circulação popular e expressão política. Mas a dimensão de uma manifestação não se resume ao local escolhido ou aos discursos pronunciados. Está também nas pessoas que decidem sair de casa, acompanhar uma caminhada e participar de um acontecimento que consideram importante.

A multidão que acompanhou Lula deu ao ato uma dimensão visual e política que a campanha buscou transformar em demonstração de força eleitoral. Para compreender o que essa mobilização representa para os potiguares, é preciso considerar também as experiências, as expectativas e as razões que levam cada pessoa a participar.

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