
A crise do banco Ueno levou brasileiros que vivem no Paraguai a usar grupos de WhatsApp e Facebook para relatar dinheiro retido e buscar orientação sobre despesas básicas. A instituição fechou as portas na terça-feira (3), após o Banco Central iniciar sua liquidação, deixando clientes sem acesso aos depósitos.
A médica mineira Katrye Lucena, de 27 anos, afirmou que não conseguiu receber o salário do mês. Moradora do Paraguai desde os 17 anos, ela disse que ficou sem recursos até para aluguel e alimentação. “Cada pessoa tem sua realidade, mas todos compartilham a preocupação de não conseguir acessar o próprio dinheiro, que muitas vezes é destinado a despesas essenciais”, relatou ao g1.
O Ueno tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, entre eles recursos do Instituto de Previdência Social. O Banco Central apontou insuficiência de recursos para cobrir as obrigações da instituição, ligada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao banco.
O caso também atingiu a política paraguaia. O presidente Santiago Peña foi acionista do grupo proprietário do Ueno até março de 2025, vínculo que provocou questionamentos sobre conflito de interesses. Na quinta-feira (5), ele anunciou a intenção de renunciar, mas a Câmara abriu o processo de impeachment e o Senado deve retomar a análise nesta sexta-feira (6).

Grupos reúnem alertas sobre emprego e custo de vida
Fora da crise bancária, os grupos funcionam como rede de apoio para brasileiros que pretendem se mudar ou já moram no país. Entre as dúvidas mais frequentes estão vagas de trabalho, documentação migratória, aluguel, mercados, profissionais de manutenção e lugares para comprar carne.
Integrantes mais antigos costumam desencorajar quem planeja cruzar a fronteira sem planejamento ou em busca de emprego formal. “Paraguai não é pra CLT”, escreveu um participante em resposta a um brasileiro que procurava trabalho e moradia antes de visitar o país. Outro usuário classificou como “KIT ILUSÃO” conteúdos na internet que vendem uma visão simplificada da mudança.
Marcelo Bernard, de 26 anos, mora em Presidente Franco e conheceu os grupos enquanto pesquisava o país antes de viver com a namorada paraguaia. Ele afirma que as recomendações dos participantes ajudaram na adaptação, inclusive depois de ele e a companheira passarem mal ao consumir carne comprada em um estabelecimento desconhecido.
O interesse brasileiro pelo Paraguai cresceu nos últimos anos: entre janeiro e outubro de 2026, cidadãos do Brasil receberam 34.794 autorizações de residência, o equivalente a 67% das concessões a estrangeiros no período. O pesquisador Aníbal Orué Pozzo, professor da Unila, atribui o movimento a uma política paraguaia de atração de investimentos e estrangeiros desenvolvida ao longo de mais de uma década.
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