
A advogada, influenciadora digital e empresária Deolane Bezerra foi presa pela segunda vez nesta quinta-feira (21), em São Paulo, em uma operação do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil contra lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A ação mira um esquema que teria usado uma transportadora de cargas de Presidente Venceslau, no interior paulista, como estrutura financeira da facção.
Deolane ganhou notoriedade nacional após a morte de MC Kevin, em 16 de maio de 2021. O funkeiro morreu aos 23 anos depois de cair da varanda de um quarto de hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde estava hospedado com a influenciadora. Segundo a Polícia Civil do Rio, a perícia concluiu que a morte foi acidental e não encontrou indícios de agressão ou luta corporal no quarto.
Antes da fama como influenciadora, Deolane já atuava na área jurídica. Com o crescimento nas redes, passou a associar a carreira de advogada à atuação como empresária e criadora de conteúdo. No Instagram, onde reúne mais de 21 milhões de seguidores, ela costuma publicar viagens internacionais, carros de luxo, joias, roupas de grife e mansões, além de mensagens religiosas e conteúdos ligados ao mercado de apostas online.
A influenciadora também tentou ampliar sua presença no entretenimento. Em 2021, investiu na carreira musical e, no ano seguinte, participou da 14ª edição de “A Fazenda”, reality show da Record. Ela deixou o programa após a morte da mãe. Desde então, manteve forte presença em campanhas publicitárias, eventos e plataformas digitais.
Em setembro de 2024, Deolane foi presa pela primeira vez em Pernambuco, durante a Operação Integration, que investigava um suposto esquema de lavagem de dinheiro e jogos ilegais ligados a bets. A defesa negou irregularidades, e a influenciadora deixou a prisão após obter habeas corpus. Depois, passou a acusar autoridades de abuso de poder e afirmou ter sido alvo de uma “prisão criminosa”.

Deolane e o PCC
A nova prisão, em São Paulo, recoloca Deolane no centro de uma investigação de grande repercussão nacional. Desta vez, segundo o g1, o Ministério Público de São Paulo e a Polícia Civil apuram suspeitas de lavagem de dinheiro ligada ao PCC, com bloqueio de bens e análise de depósitos considerados incompatíveis com a renda formal declarada pela influenciadora.
Depois da repercussão do caso, Deolane ampliou sua presença nas redes sociais, passou a participar de programas de TV e se aproximou do mercado de publicidade digital e apostas online. Atualmente, tem cerca de 21,7 milhões de seguidores no Instagram, onde costuma exibir carros de luxo, mansões em Alphaville, viagens internacionais e deslocamentos em jatinho e helicóptero.
De acordo com a apuração pernambucana, Deolane teria investido R$ 65 milhões em 12 imóveis de luxo nos três anos anteriores. Ela ficou presa por cinco dias no Recife e depois obteve habeas corpus, passando a responder em liberdade com medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica. A defesa negou irregularidades e afirmou que ela era vítima de perseguição e abuso de autoridade. Até agora, não há condenação definitiva divulgada publicamente contra ela nesse caso.
A nova prisão ocorreu na Operação Vérnix, que cumpre seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão. Entre os alvos estão Marco Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder máximo do PCC; Alejandro Camacho, irmão dele; Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinhos de Marcola; e Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado como operador financeiro da organização.
Marcola e Alejandro estão presos na Penitenciária Federal de Brasília e serão comunicados sobre a nova ordem de prisão preventiva. Segundo a investigação, Paloma estaria na Espanha e Leonardo, na Bolívia. Deolane passou as últimas semanas em Roma, na Itália, chegou a ter o nome incluído na Difusão Vermelha da Interpol e retornou ao Brasil na quarta-feira (20), um dia antes da prisão.
A investigação começou em 2019, após a apreensão de bilhetes e manuscritos com presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material levou a inquéritos sucessivos sobre ordens internas da facção, menções a ataques contra servidores públicos e a possível ligação de uma transportadora com o grupo criminoso. A Operação Lado a Lado, em 2021, apontou movimentações financeiras incompatíveis e uso da empresa Lopes Lemos Transportes como fachada para lavagem de dinheiro.
O celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador central e hoje foragido, teria revelado imagens de depósitos favorecendo contas de Deolane e Everton de Souza. Segundo a investigação, Ciro comprava caminhões, movimentava recursos da cúpula do PCC, executava ordens de Marcola e Alejandro e administrava patrimônio em nome deles.
A polícia afirma que Deolane recebeu R$ 1.067.505 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil entre 2018 e 2021, prática conhecida como smurfing. Também foram identificados quase 50 depósitos feitos a duas empresas da influenciadora, no valor total de R$ 716 mil. Para os investigadores, a projeção pública, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial eram usadas como “camadas de aparente legalidade” para dificultar a identificação da origem dos recursos.
A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões em nome de Deolane, valor que, segundo a investigação, não teve origem comprovada e apresenta indicativos de lavagem de dinheiro. Também foram bloqueados 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões e R$ 357,5 milhões em ativos financeiros dos investigados.
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