TEM NENHUM SANTO: Zema critica caso Flávio-Vorcaro, mas recebeu dinheiro e beneficiou pai do banqueiro preso hoje

 

Henrique Vorcaro e Romeu Zema
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Em postagem na tarde desta quarta (13), Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência pelo Novo, disse ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ): “Ouvir você cobrar dinheiro do Vorcaro é imperdoável, é um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta criticar Lula e o PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade”.

Ainda em 26 de abril, numa reportagem do jornal mineiro O Tempo, Zema afirmou “nunca ter encontrado Vorcaro”, definiu o banqueiro como “talvez o maior criminoso do país” e disse nunca ter tido contato com o dono do banco Master.

Mas a realidade não é tão bonita como Zema a pinta. A começar pela relação com Vorcaro. Um dos maiores doadores da campanha de Zema à reeleição para governador em 2022 atende por Henrique Vorcaro — pai do banqueiro. Papai Vorcaro doou, oficialmente, R$ 1 milhão para Zema na eleição passada.

Site do TSE (Tribunal Superior ELeitoral) mostra doação de R$ 1 milhão de Henrique Vorcaro à campanha de Romeu Zema em 2022

A Polícia Federal prendeu Henrique Vorcaro na manhã desta quinta-feira (14). A detenção foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da investigação sobre irregularidades no Banco Master. A ação faz parte de uma nova fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Diretoria de Combate ao Crime Organizado (Dicor). Segundo as investigações, Henrique seria um dos beneficiários do esquema liderado pelo filho, que teria realizado depósitos em sua conta bancária.

Pode-se argumentar que não há problema em receber uma doação de campanha. De fato. Mas não quando esse doador de recursos eleitorais foi beneficiado com uma série de licenciamentos ambientais duvidosos na gestão Zema. Daniel e Henrique Vorcaro detêm diversas empresas mineradoras no estado natal.

Zema possui 16,41% das ações da Zema Crédito, Financiamento e Investimento S.A., investigada por irregularidades na oferta de consignado a aposentados e pensionistas e depôs na CPMI do INSS. A financeira foi uma das 11 empresas autorizadas pelo governo Bolsonaro a operar crédito consignado para beneficiários do BPC e do Auxílio Brasil durante a pandemia.

Na ocasião, a CPMI aprovou a quebra do sigilo bancário de Daniel Vorcaro, acusado de causar um rombo de R$ 41 bilhões em um esquema de emissão de títulos de crédito falsos, que afetou 1,6 milhão de credores. A Polícia Federal suspeita que parte desse dinheiro foi lavado pelo PCC.

Entre Investimentos Vorcaro
Daniel Vorcaro. Foto: Ana Paula Paiva/Agência O Globo

Com a chegada de Zema ao governo mineiro, o licenciamento ambiental passou a ser visto como entrave para a exploração de mineradoras e um limitante para o lucro dessas empresas – uma dessas investigações conduzidas pela PF é justamente a Operação Rejeito, cujo foco são fraudes no licenciamento ambiental em MG.

Vorcaro era dono da Itaminas e vendeu sua participação — 50% da companhia — por quase R$ 700 milhões, pouco antes de ser detido, no fim de 2025. Ele comprou essas ações em 2024 e inaugurou uma planta em Sarzedo com a presença de Zema.

Por conta das irregularidades, a Itaminas tinha dívidas e multas que chegavam aos R$ 500 milhões. Contando com a benevolência da gestão Zema, essa dívida caiu para cerca de R$ 100 milhões e a empresa voltou a operar em 2020.

Uma dessas operações é feita em conjunto com a Vale, na mina de Jangada. Esse campo fica nas proximidades da barragem de Brumadinho, local de um trágico acidente em 2019, causado pelo rompimento da barragem. Quase oito anos depois, o acidente segue impune, sem nenhuma responsabilização e com parcas indenizações às famílias das vítimas.

Cidade de Brumadinho após rompimento de barragem em 2019

Fernando Baliani, diretor da Fundação Estadual do Meio Ambiente, órgão ambiental de MG, à época, foi quem assinou o ato. Ele foi exonerado pela Justiça mineira. A Feam, não por acaso, é uma das investigadas na Operação Rejeito. O novo presidente da Feam, Edson Resende, era promotor estadual e foi nomeado por Zema. Resende prestava serviços para a Itaminas após deixar o MPMG.

Os Vorcaros controlam 90% do capital de outra mineradora, a Tamisa. O outro controlador é Fabiano Zettel, também envolvido no caso Master. Pastor da Igreja Bola de Neve na capital mineira, Zettel foi doador das campanhas de Jair Bolsonaro (R$ 3 milhões) para a Presidência e Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) para o governo de SP no pleito de 2022.

Como se vê, Zema conhece — e não é pouco — o clã Vorcaro e seu entorno. Outra prova disso, é a demora do governo de MG em tombar a Serra do Curral, de modo a não prejudicar a exploração de minerais no local pela Tamisa, controlada por Vorcaro filho e seu cunhado Zettel.

Zema pode fazer vários tuítes indignados com quem recebeu dinheiro de Vorcaro. Só precisa admitir que também participou dessa festa.

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