Devo, não nego; pago quando puder; entenda


Há um descompasso cada vez mais visível entre o ex-prefeito Álvaro Dias e a gestão do prefeito Paulinho Freire — e isso começa a produzir ruído político em um momento delicado para os dois aliados.

Ao negar, em entrevista à 96 FM, que tenha deixado um passivo próximo de R$ 1 bilhão na Prefeitura do Natal, Álvaro praticamente desmentiu o diagnóstico apresentado pela própria equipe de transição da atual gestão. E não por adversários políticos, mas por nomes ligados diretamente ao seu grupo, entre eles a vice-prefeita Joanna Guerra, ex-secretária de Planejamento da administração anterior e coordenadora da comissão que elaborou o relatório encaminhado ao TCE.

O documento apontou R$ 862,9 milhões em restos a pagar, além de dezenas de obras paralisadas ou inacabadas. Foi justamente esse cenário que serviu de base para as medidas de contenção de despesas adotadas por Paulinho Freire nos primeiros meses de governo.

Quando Álvaro afirma agora que “não havia esse passivo” e que deixou dinheiro em caixa superior às dívidas, cria-se uma situação politicamente desconfortável: ou o relatório da transição exagerou o quadro fiscal, ou a atual gestão utilizou um discurso de crise maior do que a realidade para justificar ajustes administrativos.

Outro ruído chama atenção.

A fala do ex-prefeito sobre a dívida da cantora Taty Girl amplia ainda mais esse desconforto. Álvaro reconhece a pendência, admite que ela deve ser paga, mas transfere publicamente a responsabilidade para Paulinho resolver. Na prática, joga no colo do sucessor uma conta gerada no apagar das luzes da própria gestão.

A treta entre Álvaro e Paulinho sobre as dívidas da Prefeitura do Natal pode respingar na campanha eleitoral que se avizinha.

Paulinho Freire é hoje uma peça importante nos planos políticos de Álvaro Dias para 2026. Como prefeito da capital, controla uma estrutura política relevante, influência sobre vereadores, aliados e espaços estratégicos da campanha em Natal.

Um eventual desgaste nessa relação pode produzir consequências justamente no momento em que Álvaro tenta consolidar sua pré-candidatura ao Governo do Estado.

Quem viver, verá.

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